Helenos da Claridade

Discurso de Posse Presidencial: Oração aos Helenos

Senhoras e senhores, luminosidades!

Com a permissão do Deus da minha vida, fé e convicção, chego a esta tribuna legitimado pela confiança que me foi concedida e que agradeço com humildade. Que este mandato seja tempo de luz, sustentado pela união que nos trouxe até aqui e que deve permanecer para o bem da Academia. Caminhemos para o futuro, preservando o passado, construindo no presente a eternidade que soluça em cada instante, mantendo a chama do ideal acadêmico que nos irmana: acender-se e iluminar.

Fui eleito Presidente da APLAC para servir. Com essa mentalidade conduzirei minha gestão, pautada em valores e compromissos que garantam a continuidade digna de nossa missão, com a coragem que a palavra inspira e a cultura exige.

Vida é uma palavra; e toda palavra é viva. 

As letras, pequenas centelhas, formam palavras; e as palavras dão sentido às artes e sustentam as ciências. Neste momento singular de minha vida, ao fazer uso da palavra, reverencio as letras recordando o Jardim de Infância Cirandinha, onde recebi um tesouro: um anel de formatura em ouro, gravado com ABC. Mais que joia, foi gesto de amor de minha avó Julieta Ferreira Pereira, que, viúva e em meio às dificuldades, derreteu uma das rosetas presenteadas por meu avô Agostinho para que eu tivesse esse símbolo.  Ela sabia o poder das palavras e sua atitude – que transformou luto em legado – ainda hoje fala-me que ler e escrever valem mais que ouro. Sempre dizia: “Língua não tem osso, mas quebra caroço.” E repetia: “Pelo santo se beija o altar.” Por isso, antes da minha fala, beijei o púlpito: reverência a esta Casa e à memória dessa avó que me ensinou que palavra e altar são inseparáveis, porque têm poder.

Assumo esta presidência com singular emoção: celebro a memória de minha bisavó, Cecília Marques, cujo natalício hoje recordo. Cearense de Missão Velha, ainda criança atravessou o sertão do Cariri a pé, fugindo da fome e da grande seca que se instaurou a partir de 1915. Ao chegar a Pinheiro, os campos alagados pelo Pericumã foram a visão da sua Canaã, onde fixou raízes e construiu família. Também ela conhecia o poder das palavras. Abençoava-nos com tamanha fé que sua fala ganhava vida. Com ela aprendi: “A palavra bem dita é como chuva no sertão; só o relâmpago que clareia atrai o trovão.”

Com efeito, a palavra não é apenas som, mas destino. Não é apenas gesto, mas sacramento. A fala é relâmpago que ilumina; a escrita é fogo que acende. A caneta não fala: ela escreve. E ao escrever, inflama o papel como fósforo que risca e se transforma em chama. Por isso, aqui e agora, duas Cecílias se encontram diante de mim: a da minha memória, que fazia da palavra decreto; e a da poesia, Cecília Meireles, que adverte em seus Cânticos: “Não fales palavras vãs”; e com maior veemência exorta: Faze a tua palavra perfeita. Dize somente coisas eternas”.

A vida dizer e a palavra viver.

Para dizer coisas eternas é preciso compreender a etimologia: nela, as palavras revelam sua essência e nos ajudam a entender o ser das coisas, além das guerras e disputas sem sentido.

No instante da eleição, sob a mangueira e junto ao poço, ao cumprir a tradição de incinerar as cédulas, refletia como manter acesso o fogo do ideal acadêmica, no exercício do cargo. O vento transformou a chama em labaredas, e o clarão das fagulhas trouxeram à memória – como inspiração e resposta – a cena de Graça Aranha, que em nome do modernismo bradou: “Morte à Academia!” Logo imaginei Coelho Neto, altivo, respondendo com paixão: “Eu serei o último heleno.”

Aquele contraste reacendeu em mim o poder da palavra: uma pode ser sentença de morte; outra, decreto de ressurreição. Coelho Neto não disse apenas “vida à Academia”: afirmou que a Academia vive no coração de seus membros. Por isso, confrades, sejamos helenos, do Pericumã — com palavras, ações e presença — para que, neste biênio, possamos reunir nossas quarenta cadeiras ao clarão desta Usina de Ideias, fazendo história e construindo memórias.

Helenos da Claridade

Ser heleno não é título nem fórmula: é estado de espírito. Como heleno do século XXI, professo três votos que guiarão minha gestão: tradição, vanguarda e luminosidade. Tradição como raiz, vanguarda como fruto, luminosidade como contemplação — primavera que anuncia o verão.

A palavra Academia vem de Academus, jardim grego: todo jardim tem flor; toda flor tem raiz; e seu destino é frutificar. Entre raiz e fruto, há a primavera: instante presente, onde ideias se acendem no invisível e iluminam o cotidiano.

Contemplar não é deter-se: é reconhecer que a palavra pode e deve coexistir no papel e no pixel, no livro e na nuvem da internet, escrita à mão ou digitada, mas sobretudo ela está na voz de quem fala ou simplesmente cala e tudo isso acontece sem perder sua essência. A palavra é chama que se acende em qualquer suporte: na tese do doutorado, no rabisco do bilhete simples, na música, na fórmula matemática, na poesia, na lágrima ou na gargalhada… e até no silêncio. Sua natureza não é o invólucro, mas o espírito. E espírito é atemporal.

A essência dos votos

Na tradição, a raiz; na vanguarda, o fruto; na luminosidade, a contemplação que harmoniza os dois. Cabe-nos afirmar a missão que nos une, com esperança renovada.

Nossa Academia atravessa o tempo: em 2025, são vinte primaveras que brilham como porcelana. Somos usina de ideias, templo da palavra, corpo vivo que respira pela voz de seus membros. Cada texto, discurso e publicação é elo de uma corrente que nos transcende.

A palavra é nosso instrumento: perpetua memórias, constrói pontes entre gerações, dá forma ao invisível. Ela nos irmana — e também nos julga. Que nesta Casa cada gesto seja luz, cada ação fecunda, cada presença significativa.

A missão que assumo não é apenas minha: é nossa. Como helenos do Pericumã, seremos guardiões da palavra que não se apaga, da tradição que não se quebra, da vanguarda que não se teme, e da contemplação que se sublima em plena luz interior.

Guardamos também as artes e as ciências. Ferreira Gullar nos ensinou: “a arte existe porque a vida não basta.” Acrescento: a ciência também existe porque a vida não basta. Ambas são respostas humanas ao infinito.

E se Guimarães Rosa lembra que “o real não está na saída nem na chegada; dispõe-se no meio da travessia”, declaro que este mandato é travessia: não se esgota em si, mira o jubileu de prata. Lançaremos sementes para que esse jubileu seja primavera áurea. Que a Academia viva de futuro no presente, equilibrando tradição e vanguarda, para que — como Padre Vieira, imperador da língua — possamos dizer: “ai que saudades do futuro.”

Equilíbrio entre palavra e ação

A caneta é um fósforo que risca o papel e acende a palavra. Mas se a palavra é chama que ilumina, também deve ser farol que orienta. Reconheço que o lirismo, a memória e a tradição são pilares que sustentam esta Casa, mas é igualmente necessário que a palavra se traduza em compromisso prático, pois só assim será viva em plenitude. A poesia nos inspira, a filosofia nos questiona, e a história nos guia; contudo, é na ação concreta que se cumpre a missão acadêmica.

Que cada metáfora se converta em gesto, cada lembrança em projeto, cada evocação em resultado. Assim, equilibramos o encanto da retórica com a responsabilidade da gestão, para que a Academia seja não apenas templo da palavra, mas também oficina de realizações e isso só será realidade se conservarmos a unidade na diversidade.

Se a tradição nos dá raiz e a vanguarda nos oferece fruto, cabe à gestão presente cultivar o jardim que agora também floresce em terreno eletrônico que se abre diante de nós. Surge, assim, como compromisso assumido, a página eletrônica da Academia, que não nasce do nada, mas se ergue sobre raízes firmes da gestão que findou e que surgirá amanhã, 23 de novembro, como portal de memória e futuro – marco deste jubileu de porcelana.

Recebo por herança o jornal da APLAC, cuja edição comemorativa do jubileu circulará nos próximos dias; a Titarra Poética e todo legado amealhado ao longo destas duas décadas. Mas não apenas os preservarei: proponho ampliá-los com periodicidade definida, voz contínua e presença digital, para que a palavra da Academia se renove em cada estação. Zelarei desse patrimônio para entregá-lo ao meu sucessor ampliado, pois assim deve ser: as pessoas passam, as instituições ficam.

Por isso, proponho compromissos que só se realizarão com o apoio de todos: um calendário cultural que expanda os muros desta Casa; um jornal trimestral que dê voz contínua às ideias; podcasts que levem nossa palavra ao terreno virtual; e o lançamento da página eletrônica em 23 de novembro, como portal de memória e futuro. Pretendo ainda, com meus pares e a sociedade pinheirense, transformar nossos concursos literários e artísticos em uma Feira do Livro, e sobretudo aproximar a Academia das escolas, incentivando parcerias ao florescimento das letras, artes e ciências na juventude. Assim, a palavra que aqui proclamo se converterá em ação, e o gesto sustentará o verbo.

Entre o Jubileu de Porcelana e os 170 anos da emancipação política de Pinheiro, proponho a construção da Herma Solar Pentagonal: um relógio cultural que assinale o tempo e evoque tudo o que nos representa. Mais que monumento, será testemunho físico e simbólico da permanência desta Casa e da identidade pinheirense, unindo passado e futuro no presente. Nele Pinheiro verá a passagem das horas e a travessia de sua cultura; no curso da luz, feito chama da palavra que resiste — para que a Academia permaneça verbo em flor, cujo perfume seja o pragmatismo da ação.

Declaro diante de vós, que me empenharei para dar o meu melhor; não para ser o melhor presidente da história desta casa, mas sim para ser paradigma a ser superado pelo que me suceder. Pois é assim que se fortalece a Academia: cada gestão como degrau, cada presidente como ponte, cada sucessor como aurora que supera o ocaso anterior, para o bem e progresso da Academia.

Palavra que se faz eterna

Neste instante final, evoco minha família como raiz e destino. Minhas filhas Cecília e Júlia, que são promessa de futuro, tesouros que Adriana me deu; minha mãe, que me ensinou dizer coisas eternas e meu pai, que afiava as pontas de meus lápis feito espadas, para que eu lutasse com ideias; minha avó Izaura Marques do Nascimento Sousa, que caminhou comigo além das margens do Pericumã, ensinando que a travessia é feita de fé e coragem. Meus queridos irmãos, primos, tios, sobrinhos e a memória de meus avôs Júlio Alves e Esmeraldo Araújo, ambos homens de palavra e de silêncio que fala. Carrego-os comigo porque somos um só: feitos de sangue e de palavra, de silêncio e de claridade. Se a Academia é para mim verbo em flor, minha família é a seiva que sustenta esse verbo.

A presidência que ora assumo é apenas um capítulo de uma narrativa maior, escrita por muitos antes de mim e que continuará a ser escrita por muitos depois. Meu desejo é colocar vírgula de continuidade; e virar academusa página do presente para que o futuro possa escrever outras primaveras, perfumadas de luz.

Que este mandato seja lembrado pelo futuro que anseia, pois na Academia, como na vida, a palavra é raiz; a ação, fruto; e o tempo, testemunha. O que importa é a permanência da chama que se mantem acessa em cada geração.

Que minha luz seja apenas o clarão que anuncia o brilho maior dos que virão — porque a Academia é de todos nós, e nela cada voz é chama que resiste. E para concluir, com uma palavra bem dita, que seja relâmpago que clareia e que ressoe como trovão… digo de coração: Ave Academia!

Luminosidade a todos!

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