Há nas crianças uma arquitetura sutil e magnífica: a de uma biblioteca cujas estantes não guardam tomos empoeirados, mas páginas vivas, abertas ao sol e impregnadas do desejo de devorar o mundo.
Se a vida adulta amiúde se reduz a uma edição revista e anotada pelas certezas do tempo, a infância permanece como o manuscrito original, sem rasuras, pulsante de curiosidade, onde cada imagem é uma revelação e cada palavra vista pela primeira vez tem o frescor da criação do universo.
Debaixo do Angelinzeiro, quando o bem-te-vi cantou anunciando a última tarde de setembro, a APLAC silenciou sua lira e chorou. Não pela revolta diante da despedida inevitável, de quem perde a graça, mas num pranto manso: oração liquefeita em lágrimas discretas, algumas até invisíveis. Lágrimas profundas e caudalosas como as águas do Pericumã, em sereno e silencioso transbordar de saudade, seguindo o curso que deságua no insondável. Nossa Graça dizia adeus!
Das vocações da APLAC, duas se completam.
Em 1855, sob a capa austera de Santo Inácio, uma Freguesia fincou seus alicerces e abriu o livro do tempo. No ano seguinte, em 3 de setembro, ao elevar-se à Vila, Pinheiro emancipou-se da tutela do tempo e tomou para si a pena da própria história: fez da política a arte de governar o próprio destino.
Com a tinta de fé, Pinheiro grafou sua travessia: da primitiva aldeia indígena, ergueu-se em autonomia, experimentou a pressa do progresso, tornou-se Cidade Episcopal e hoje desdobra, com fé na educação
A data de 3 de setembro assinala a emancipação política ocorrida em 1856, quando foi criada a Vila de Santo Inácio do Pinheiro, incialmente povoada por índios. No primeiro centenário dessa efeméride, em 1956, houve uma grande celebração cujo maior símbolo foi o obelisco comemorativo, erguido na confluência das ruas Diogo dos Reis, Tito Soares e Benjamin Constant com as avenidas José Paulo Alvim e Presidente Dutra.
Que feliz coincidência: do obelisco partem cinco vias que se entrelaçam formando uma estrela,
Será que o Brasil se tornou um império porque Dom João VI, ao aportar nestas terras em 1808, trazia uma coroa sobre a cabeça? O certo é que, após empreender fuga dos exércitos de Napoleão, trouxe na bagagem a Biblioteca Real: um rico acervo de livros; embrião da intelectualidade da nova Corte, que sediaria o Império Lusitano.
Anos mais tarde, selada a Independência em 1822, Dom Pedro I compreendeu que o Império Brasileiro, para ser soberano exigia, antes de tudo, mentes formadas nas luzes do Direito e das letras
Neste Dia dos Pais, celebramos a essência firme e essencial de homens que, sem buscar aplausos, constroem futuro com a autoridade serena de sua presença, desbravando seus limites para prover sentido, promover esperança e proteger a dignidade da descendência que abraçam.
Pai é direção que orienta, palavra que sustenta, silêncio que educa. É raiz pivotante que se aprofunda na responsabilidade que carrega o peso das decisões com serenidade, transformando cada ato em legado, cada passo em futuro, dando sombra ao abrigo do olhar que, paternal, abre caminho.
Chegou julho. Em Pinheiro, o mês não é apenas tempo; é destino. A memória, tecelã incansável, insiste em me devolver à infância, aos olhos erguidos para ver passar o andor de Santo Inácio. Altivo e monumental, o Santo ganhava vida no troar dos foguetes na saída da Catedral.
Recordo, como se fosse ontem, aquele 31 de julho em que, menino de dez anos, vi baixarem a imagem para ornamentar o andor. Zé Pereira, sacristão antigo, retirou o barrete de pano para sacudir a poeira.
O primeiro edifício de Pinheiro foi a fé. Esta afirmação me reporta Adão da Costa Amorim, o Mestre Adão — patrono da cadeira que ocupo na APLAC – homem da construção civil, ajudou a erguer as torres da atual catedral de Pinheiro, além de tantas outras edificações de beleza singular, algumas já desaparecidas. Não poderia — seja pela devoção que carrego na alma e pelo amor que trago a Pinheiro no coração — deixar despercebida a passagem do bicentenário da provisão da licença
Chegou o mês de junho — e, no olhar naturalista de Aluísio Azevedo em O Mulato, o mais bonito do Maranhão. O céu se veste de bandeirolas, o ar se enche do cheiro da lenha acesa e a zabumba pulsa no ritmo da terra, cadenciando lá no fundo o próprio bater do coração. Junho é promessa e memória; é o instante em que a identidade se veste de festa e a alma coletiva se reconhece em cada compasso.
Mas há um descompasso que não podemos silenciar: em pleno período junino,
A maternidade não se encerra no ventre, ou se limita ao acaso da natureza. É obra da vontade, vocação da alma, decisão do coração. Há mães que não gestam no útero, mas sim no amor. O sangue é contingência biológica; o cuidado é escolha, renovada todos os dias, em que reside grandeza e revela sua poesia maior no aperto de um abraço, ou de uma saudade.
A biologia que explica a gestação e o parto não define a maternidade.