Defensoria Literária: porque até os livros precisam de advogado

Pinheiro é terra de homens que fizeram da cultura sua missão. Domingos Perdigão, fundador da Faculdade de Direito do Maranhão e diretor da Biblioteca Benedito Leite, ergueu em 1929 a Biblioteca Popular de Pinheiro, consumida pelas chamas da Revolução de 1930, mas cujo clarão ainda ilumina a cidade. No mesmo ano em que se apagava um farol de livros, nasceu Sarney — farol de palavras.

Elisabetho Carvalho, piauiense de nascimento e pinheirense de coração, em 1954 trouxe livros raros e mobiliário nobre do Rio de Janeiro e fundou a Biblioteca de Geografia e História. Dedeco Mendes, anos mais tarde, recolheu os fragmentos e instituiu a atual Biblioteca Elisabetho Carvalho, instalada na antiga Usina — hoje sede da APLAC. Essa genealogia mostra que Pinheiro não apenas teve bibliotecas: sempre buscou recriá-las, como quem reacende faróis.

Agora, aos 170 anos de emancipação, o quintal da Usina é encruzilhada. Ali se anuncia a construção da Defensoria Pública. Mas o que se pede é outra defensoria: a dos livros. Uma biblioteca moderna não é ornamento, é trincheira contra a ignorância, é cidadania inscrita em páginas.

A Defensoria Pública merece espaço digno, mas junto ao novo fórum, no bairro do Antigo Aeroporto, em terreno amplo já doado pelo município ao Judiciário. O mesmo município que soube doar área para o fórum pode também doar outra para a Defensoria. Assim fortalece a justiça e liberta o quintal da Usina para sua vocação cultural. Cabe ao Executivo e ao Legislativo decidir: seguir na genealogia da asfixia cultural ou inscrever-se entre os que constroem bibliotecas como quem acende faróis.

Pinheiro já deu ao Brasil José Sarney, estadista e advogado que recebeu a grande causa da redemocratização. Hoje, em lucidez intelectual, sua biografia de homem literato é imperativo categórico que nos interpela: defender a modernização e ampliação da biblioteca municipal de sua terra natal. Pois se a democracia precisa de instituições, a cidadania precisa de livros.

Que Pinheiro não renuncie ao que lhe é próprio. Que escolha ser farol. Pois não pode o berço do decano da Academia Brasileira de Letras viver sem uma biblioteca à altura.

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