A Pátria da Língua e o Éden dos Livros

Fernando Pessoa declarou com lucidez e paixão: “Minha pátria é a língua portuguesa”. E é verdade: nela cabem mil vozes, mil rostos, mil mundos. É o chão que nos prende à memória e a asa que nos lança ao futuro. E se a pátria é feita de cidadãos, é na biblioteca que eles encontram abrigo.

Mas junho também é o mês em que a língua portuguesa ganha notoriedade como músculo. Santo Antônio, português, cuja língua permanece incorrupta há quase oito séculos, não nos deixa esquecer a força desse órgão, cujas palavras benignas, sábias e eternas, uma vez pronunciadas, operaram milagres. Já São João Batista, celebrado no mesmo mês, cujo nascimento um anjo anunciou, traz outra lição: seu pai, Zacarias, por duvidar, perdeu a fala até que a promessa se cumprisse. Entre o silêncio da língua de Zacarias e a língua incorrupta de Antônio, ergue-se o símbolo da palavra como dom e como responsabilidade. E no meio de tudo ecoa a sabedoria popular, em português contundente: “língua não tem osso, mas quebra caroço”.

E assim, nesse mês junino e linguístico, pela dupla natureza da língua – músculo e idioma – convém um pedido a Santo Antônio, que fala nossa língua, mas sobretudo a São João, voz que clamava no deserto, cuja escrita e pronúncia do próprio nome curou a mudez de seu pai: que nossa geração não tenha de experimentar o silêncio de Zacarias pela incredulidade e insensibilidade das autoridades constituídas. Ao invés de ampliar a biblioteca, insistem em erguer no quintal da Usina de Ideias – local que pede ser jardim de livros – uma Defensoria Pública, que deveria estar próxima a nova sede que será construída para o fórum de justiça.

Ah, São João dos carneirinhos, cuja natividade se festeja com explosão de alegrias e foguetes, das notas musicais germinadas das palavras pronunciadas do hino em teu louvor, irrigue o jardim das bibliotecas com as águas taumaturgas do Jordão, para que a última flor do Lácio floresça cada vez mais. Derrama essas águas em Pinheiro, especialmente no quintal da Usina, para que ali se erga esse novo Éden: a Biblioteca Municipal de Pinheiro, jardim onde a última flor do Lácio encontrará solo fértil para uma primavera perene.

E porque estamos em junho, com a língua – músculo e idioma – peço em português que Santo Antônio acenda esta ideia, que São João a confirme, e que São Pedro, enfim, com sua chave de ouro, abra as portas do coração e do entendimento das autoridades públicas pinheirenses. Que ao lado de uma Academia de Letras, tenham o discernimento salutar de erguer uma biblioteca moderna, como um paraíso linguístico, um novo Éden, onde a língua seja instrumento de defesa e libertação, capaz de curar a mudez dos Zacarias de hoje.

Que Pinheiro, terra de José Sarney – homem que aqui aprendeu a falar e cuja palavra ecoa mundo afora – escolha ser farol. Que a língua portuguesa, pátria de Fernando Pessoa, edifique não apenas altares, mas também casas de saber — preferencialmente antes de casas de defesa —, porque quem sabe fala por si só. Somente assim os Zacarias terão voz para defender-se, cantando com língua solta – músculo e idioma – a alegria de tê-la por pátria e Éden.

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