
O primeiro edifício de Pinheiro foi a fé. Esta afirmação me reporta Adão da Costa Amorim, o Mestre Adão — patrono da cadeira que ocupo na APLAC – homem da construção civil, ajudou a erguer as torres da atual catedral de Pinheiro, além de tantas outras edificações de beleza singular, algumas já desaparecidas. Não poderia — seja pela devoção que carrego na alma e pelo amor que trago a Pinheiro no coração — deixar despercebida a passagem do bicentenário da provisão da licença eclesiástica da primeira capela — oratório público do Lugar do Pinheiro — que depois se tornou freguesia de Santo Inácio do Pinheiro, e só então vila homônima, e finalmente cidade.
Após significativo trabalho de pesquisa, reunindo informações e dados primários, com a valiosa ajuda do Escritório Artesiana, elaboramos uma marca comemorativa: um selo e uma camisa que assinalam a efeméride. Desde logo esclareço que a marca não se esgota no campo da fé católica, ela transborda culturalmente e oblitera no tempo e na história o local que é marco zero da cidade: símbolo de devoção e religiosidade que se entrelaçam na memória.
Na torre esquerda da catedral, paira a lembrança da primeira capela — pedras que há dois séculos murmuram, em silêncio, que Pinheiro nasceu ali. Primeiro ergueu-se a capela, só depois veio a autorização — como se a fé tivesse pressa e a burocracia, preguiça. Essa inversão tanto revela a geografia difícil dos campos alagados, que comprometia a comunicação célere, como a força que está no DNA da cidade: a força de quem faz acontecer, mesmo quando o mundo insiste em esperar.

O selo traz em si a narrativa simbólica da história: no numeral 200, o número 2 abriga o cálice sobreposto à hóstia, lembrando um sol que anuncia o novo alvorecer da cidade a partir da licença da capela. No primeiro zero, que também sugere aliança, a base triangular remete à geometria sobreposta à porta principal da catedral — outrora, na antiga matriz, havia apenas uma torre baixa à esquerda e três portas centrais; o padre Newton, ao ampliar, ergueu a outra torre, fez das portas uma só e pôs acima o triângulo que evoca a Trindade, o presente, o passado e o porvir. No segundo zero, que sugere auréola, repousa o barrete de Santo Inácio, sinal visível e simbólico da presença e do patrocínio do santo espanhol que se fez amigo dos pinheirenses ao longo de dois séculos.
Não posso deixar de sublinhar o nome de João Barreiros, construtor da primeira capela que ousou erguer paredes antes de pedir a licença eclesiástica. Seu ato, talvez inconsequente — no sentido de não medir a dimensão do desdobramento — rompeu com formalismos em uma época de comunicação morosa e precária, mas definiu o destino de Pinheiro. Dessa ousadia nasceu uma devoção que se converteu em cultura, memória e identidade coletiva.
Com este selo comemorativo, celebramos a devoção pinheirense ao seu padroeiro e a memória de João Barreiros, com o que simboliza: a ousadia de um povo protagonista que escreve sua história com atitudes concretas, antes que outros a autorizem ou transcrevam em papéis. Que não falte fé a Pinheiro, nem a coragem de João Barreiros, para que no alicerce da ação se erga, sempre, um novo alvorecer — porque aqui, como em toda boa história, o povo é quem escreve primeiro, e só depois o mundo se apressa em registrar.

