À Sombra da Capa Preta de Inácio

Chegou julho. Em Pinheiro, o mês não é apenas tempo; é destino. A memória, tecelã incansável, insiste em me devolver à infância, aos olhos erguidos para ver passar o andor de Santo Inácio. Altivo e monumental, o Santo ganhava vida no troar dos foguetes na saída da Catedral.

Recordo, como se fosse ontem, aquele 31 de julho em que, menino de dez anos, vi baixarem a imagem para ornamentar o andor. Zé Pereira, sacristão antigo, retirou o barrete de pano para sacudir a poeira. Fiquei pasmo: Santo Inácio era careca. Imediatamente, o velho repôs o barrete, zeloso, para que a imagem — entalhada por mãos indígenas sob o comando de Manuel Manso, em São Luís do Maranhão, no ano de 1699 — não ficasse com a têmpora exposta. Aquela nudez de madeira gravou-se em mim como segredo partilhado: o barrete é o véu que guarda a cabeça do Santo.

Este ano de 2026 marca duzentos anos da licença eclesiástica da primeira capela, embrião da nossa Matriz e cabeça da nossa história, cidade que se estendeu tendo a Rua Grande como espinha dorsal. Hoje, porém, a Rua Grande é outra. O sol dos trópicos, implacável, cobra com juros o tempo em que vivíamos sob o abrigo dos ipês, arrancados pela raiz.

No lugar, ergueram-se palmeiras imperiais: altivas, frias, sentinelas de um paisagismo que esqueceu o pedestre que caminha e não trafega em ar-condicionado. Árvores indiferentes, cuja sombra sequer alcança o chão. Onde havia sinfonia de pássaros, silêncio de asfalto; onde havia ipês, vazio. O transeunte, agora órfão de sombra, atravessa o mormaço e esmorece.

A cidade nasceu sob o amparo do babaçu, palmeira nossa de cada dia, que deu fruto ao sustento e palha à casa, ao cofo, ao abano. A quem recorrer? Se até o Santo, com sua calva de madeira, precisa de chapéu, ele entende a nossa nudez diante do sol que escalda a moleira.

A cidade nasceu sob o amparo do babaçu, palmeira nossa de cada dia, que deu fruto ao sustento e palha à casa, ao cofo, ao abano. A quem recorrer? Se até o Santo, com sua calva de madeira, precisa de chapéu, ele entende a nossa nudez diante do sol que escalda a moleira.

Inácio, santo careca, sabe bem o que é ter a têmpora descoberta e conhece o peso do erro por quem um dia também foi pecador; num gesto cúmplice, quem sabe ele não nos arremessa o barrete, como quem pisca o olho para um velho amigo esbaforido, reconhecendo que, no fundo, ele sabe exatamente como é andar por aí tão desprovido de proteção quanto nós.

O barrete é bom, mas não basta. Que o ‘Homem da Capa Preta’ estenda sua capa sobre o povo de Pinheiro, como sombra que o paisagismo moderno nos negou para atravessarmos este deserto de pedra — canteiro onde, em certas partes, brotaram apenas olhos de gato que não enxergam o pedestre, tampouco sua sede de sombra, mas apenas o vulto da correria dos carros.

E, assim, quando a sombra física nos for negada pela insensatez humana, que seja mais forte que o sol escaldante a certeza de que, sob a capa de Inácio, não há meio-dia que não se torne, pelo milagre da fé, lugar de sossego.

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