É junho outra vez, no Maranhão

Chegou o mês de junho — e, no olhar naturalista de Aluísio Azevedo em O Mulato, o mais bonito do Maranhão. O céu se veste de bandeirolas, o ar se enche do cheiro da lenha acesa e a zabumba pulsa no ritmo da terra, cadenciando lá no fundo o próprio bater do coração. Junho é promessa e memória; é o instante em que a identidade se veste de festa e a alma coletiva se reconhece em cada compasso.

Mas há um descompasso que não podemos silenciar: em pleno período junino, os poderes públicos financiam com largueza festas que nada têm a ver com o São João, onde os protagonistas são ritmos de fora: artificiais e eletrônicos, em contraposição à mecânica artesanal e humana de nossa sonoridade. Se há dinheiro para sustentar uma cultura que não nos pertence, é sinal de que falta o devido zelo pela prata da casa, que sem o lustre necessário deixa de brilhar com toda a intensidade que possui.

O vultuoso cachê por uma noite de “cultura forasteira”, debaixo do céu de junho nos arraiais do Maranhão, financia a penúria de inúmeras jornadas dos nossos mestres. É a lógica que faz a tradição “não encher barriga” e força o êxodo cultural pela ânsia de saciar o estômago — pois com fome ninguém pode cantar, dançar ou tocar matraca, zabumba ou pandeirão. A imagem de Mestre Coxinho, que nos deu o “Urro do Boi” e partiu em extrema pobreza, é um alerta atual para que, sobretudo em junho, o financiamento de dinheiro público seja exclusivo à nossa cultura e aos seus fazedores, garantindo-lhes o sustento capaz de ecoar dignidade pelo ano inteiro.

O céu se veste de bandeirolas, o ar se enche do cheiro da lenha acesa e a zabumba pulsa no ritmo da terra

Em Pinheiro, o silêncio é testemunha. A zabumba do Boi de Maria de Caetano, que ecoava por trás da Igreja Matriz, se calou. Os clarins do Boi Cidade de Pinheiro também emudeceram. Felizmente, ainda resiste a sonoridade marcante da zabumba do Boi de Valmir e a melodia vibrante da orquestra do Boi de Donzinho, do Encantos e do Mocidade de Pinheiro. Mas até quando resistirão? Se sobra dinheiro para o “show de artista de fora”, faltará sempre para a nossa gente. E aqui, com tristeza, chamo atenção para o boi sotaque Costa de Mão, natural de Cururupu, em risco de desaparecer.

O Maranhão não precisa consumir o alheio, nem reduzir sua rica cultura a produto de prateleira para turista. Em São Luís, as matracas viram a noite por devoção a São Pedro e seguem firmes em louvor a São Marçal. Por que não ampliar esse formato? Na região do Munim, berço das orquestras, caberia um festival dedicado à sua sonoridade. Na Baixada Maranhense, onde o zabumba nasceu, um encontro que dialogue e amplie o festival que já existe na capital. Cada região celebraria seu sotaque, fortalecendo a identidade onde ela pulsa mais forte.

O entrave da logística é real, mas a solução é política. Se ao menos 10% do valor gasto com “shows importados” em pleno junho fosse revertido exclusivamente para apoiar o deslocamento e a estada mínima dos nossos grupos folclóricos, o impacto seria monumental. Seria investir na economia do afeto, no arroz de cuxá, na tapioca e na juçara com farinha — porque nossa cultura está na música, na dança e na mesa, e é isso que movimenta a alma e o corpo do nosso povo.

Que junho seja ainda mais bonito no Maranhão. Que o coração da terra pulse em zabumba, matraca, orquestra e tambor. Que o Maranhão celebre a si mesmo com coragem e devoção. Porque junho não precisa de importações; precisa apenas ser o que já é: o mês mais bonito do Maranhão.

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