Neste primeiro de maio, em que celebramos simultaneamente o Dia do Trabalho e o Dia da Literatura, a consciência histórica sobre quem somos e de onde viemos interpela a reflexão sobre o valor da dignidade humana e os instrumentos que a sustentam. O trabalho, quando livre e digno, é expressão da cidadania; a literatura, quando cultivada, é chama que ilumina consciências. Ambos se entrelaçam como pilares de emancipação.
Mas a literatura não se limita ao livro ou ao poema. Antes de tudo, é linguagem e comunicação de uma ideia, sendo a palavra escrita apenas uma de suas faces. O trabalho de padre Risso, saudoso acadêmico da APLAC, é exemplo de literatura concreta: ergueu escolas com o suor de suas mãos e com a fé na convicção de que “o povo educado não pode ser dominado.” Essa frase é verso, é lema, é crônica, é filosofia. A literatura é cotidiana, pois imita a vida; e a vida, quando vivida com grandeza, se torna literatura. Quem vive, faz literatura. O escritor apenas comunica em palavras essa dicotomia: a vida literária e a literatura da vida.
Não por acaso, o Dia da Literatura se celebra neste 1º de maio, data do nascimento de José de Alencar — um “filho consanguíneo de padre” que se tornou pai da literatura nacional. E aqui se abre um elo fecundo com nossa realidade: padre Luige Risso, com sua obra concreta, também gerou “filhos” pela literatura, as crianças alfabetizadas em escolas erguidas com seu suor e sua fé. Eis a literatura em sua multiplicidade: ora escrita em romances, ora gravada em leis, ora edificada em paredes de escolas. Filha de seu tempo, com suas grandezas e suas limitações, a literatura, afinal, é espelho da vida e revela tanto as virtudes que aspiramos quanto as fragilidades que precisamos superar.
A literatura é trabalho da alma. O escritor, o poeta, o cronista, todos laboram na seara do espírito, semeando ideias que germinam em liberdade.

O trabalho dignifica, a literatura liberta, e juntos constroem o legado — escrito nas páginas da vida, com atitudes e também com omissões.
Maio também é considerado o mês das flores e no Brasil elas exalam a fragrância da liberdade, pois é o mês da Abolição da Escravatura, marco histórico que nos recorda que liberdade não é dádiva, mas conquista. A própria Lei Áurea, com a pujança de suas palavras, pode ser compreendida como literatura: texto jurídico que, ao ser escrito, transformou a realidade.
A literatura é trabalho da alma. O escritor, o poeta, o cronista, todos laboram na seara do espírito, semeando ideias que germinam em liberdade. A instrução, filha das letras, é o caminho pelo qual o povo se emancipa, pela consciência crítica e pela capacidade de pensar além das correntes que o prendem. Por isso, a palavra que liberta é literatura, por excelência.
No campo da memória pinheirense, maio também nos traz um acontecimento decisivo para literatura da história de Pinheiro: a criação da Freguesia de Santo Inácio do Pinheiro, em 26 de maio de 1855. Muito antes da cidade, este ato fundacional foi determinante para que Pinheiro se tornasse o que é hoje — centro vivo de cultura, trabalho e letras.
Maio de memória, liberdade e esperança: que tuas flores exalem também a literatura que não se encerra no livro, nem no poema, mas se escreve na própria existência. Como disse Alencar em O Guarani: “A liberdade é o bem mais precioso que um ser humano pode possuir.” Que floresça em cada um a certeza de que, assim como o escritor é livre no ato de escrever, aquele que vive é livre no ato de existir, compondo sua obra um dia de cada vez. O trabalho dignifica, a literatura liberta, e juntos constroem o legado — escrito nas páginas da vida, com atitudes e também com omissões.

