José Paulo Alvim em Crônicas: A Picada da Cobra

A PICADA DA COBRA.
(Aymoré Alvim, APLAC, ALL, AMM).

Ele chegou já no fim da tarde. Esbaforido, Zé de Quirino viera falar com meu pai.

– Boa tarde, Seu Zé.

– Bom tarde, caboclo! O que aconteceu?

– Ah! Seu Zé. Eu vim num galope só de Pacas até aqui para o senhor arranjar um remédio pro compadre Dico de Maramaldo. Ele foi picado por uma cobra venenosa.

– Qual foi a cobra, rapaz?

– Ele disse que pelo jeitão parecia uma jararaca.

– E como foi isso?

– Seu Zé, no começo da tarde, o compadre foi fazer “precisão” no mato e a cobra picou a cabeça do negócio dele.

– Mas, que negócio?

– Com perdão da má palavra, o negócio dele mijar.

– Ih! Isso é grave. O único remédio para picada de cobra venenosa é o soro anti-ofídico. Agora, eu não tenho. Estou esperando da capital. Mas, dá um pulo na Farmácia do Isidoro e vê se tu encontras por lá.

– E senão encontrar, Seu Zé?

– Bem, nesse caso, a única coisa que tu tens que fazer é chupar o local da picada. E chupar bem forte que é pra puxar o sangue ruim, senão ele pode morrer.

– Chupar, Seu Zé? Com a boca?

– E com que mais tu querias chupar, caboclo?

Se ele passou pela Farmácia do Seu Isidoro eu não soube. Mas, ao chegar a Pacas…

– Como é, compadre, o que foi que o homem disse?

– Ah! Compadre, ele disse que tu vais morrer.

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OBSERVAÇÃO: José Paulo de Carvalho Alvim (Zé Alvim), é patrono da cadeira de número 3 da APLAC, que teve por primeira ocupante, sua filha, a especialista em parasitologia, a saudosa Moema de Castro Alvim. Farmacêutico nascido em 10/01/1981, em Codó-MA, radicado em Pinheiro-MA, onde fundou a Pharmácia da Paz, a única da região no início do século XX, que tantos pinheirenses socorreu. Por ocasião do transcurso dos 130 anos do seu nascimento, publica-se uma série de crônicas feitas pelo acadêmico Aymoré Alvim (filho de Zé Alvim), as quais fruto da educação recebida no convívio familiar e da observação do exercício profissional  paterno. São reminiscências que revelam costumes, cenários e particularidades de um povo e de uma cidade provinciana, que outrora era Vila de Santo Inácio do Pinheiro.

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