Na manhã chuvosa e ensolarada de 23 de novembro de 2020, em meio às sombras da pandemia, ergueu-se um símbolo de esperança e eloquência: o Púlpito de Cristal. Idealizado pela incansável acadêmica Iranilda Silva Lima Fonseca, essa tribuna transparente, adornada com o brasão da APLAC, tornou-se o coração do Jubileu de Cristal da Academia.
Mais do que um objeto físico, o púlpito representa a travessia — literal e simbólica — da cultura, da memória e da palavra. Transportado com zelo pelas águas revoltas do boqueirão, chegou intacto ao seu destino, como que protegido pela força da missão que carregava.
A cerimônia, breve mas profundamente significativa, teve seu ápice com o ato inaugural do púlpito, realizado pelo seu descerramento em três atos. Para cada um, a acadêmica Iranilda Fonseca pronunciou uma palavra-chave: “Deus Seja Louvado”, “Acender-se e iluminar”, “Pinheiro, luminosidades”. Com essas palavras, o púlpito foi oficialmente inaugurado, como se cada expressão fosse um selo espiritual e simbólico que consagrava a tribuna.
E como num espetáculo da natureza, chuva e sol se entrelaçaram, enquanto fogos de artifício desenhavam arco-íris efêmeros no céu — uma metáfora viva da beleza que nasce da adversidade.
O nome “Púlpito de Cristal”, cunhado pelo acadêmico Mauricio Gomes Alves, cristaliza não apenas o material da tribuna, mas a transparência, a fragilidade e a força da palavra acadêmica. A leitura dos nomes dos patronos, dos acadêmicos falecidos e dos titulares, seguida da mensagem de José Sarney, conferiu à cerimônia o peso da tradição e da continuidade.
Encerrando com brilho, a fala da presidente em exercício, Iranilda Fonseca, reverenciou a língua portuguesa como potência e mistério. Ao evocar Santo Antônio — o português Fernando de Bulhões — lembrou que, após sua morte, todo o corpo se decompôs, menos a sua língua, que permanece incorrupta até hoje. A língua que não pereceu, porque falava português. E ao citar Padre Vieira, o imperador da língua, destacou que ele também se chamava Antônio, como que selando um pacto entre o verbo e a eternidade.
Com a frase “Ai que saudades do futuro”, Iranilda lançou um olhar poético sobre o tempo — onde passado, presente e porvir se entrelaçam. E assim, o Púlpito de Cristal tornou-se não apenas um objeto, mas um altar da palavra, da memória e da esperança.

