Em 1855, sob a capa austera de Santo Inácio, uma Freguesia fincou seus alicerces e abriu o livro do tempo. No ano seguinte, em 3 de setembro, ao elevar-se à Vila, Pinheiro emancipou-se da tutela do tempo e tomou para si a pena da própria história: fez da política a arte de governar o próprio destino.
Com a tinta de fé, Pinheiro grafou sua travessia: da primitiva aldeia indígena, ergueu-se em autonomia, experimentou a pressa do progresso, tornou-se Cidade Episcopal e hoje desdobra, com fé na educação, sua vocação em farol universitário, onde a razão também se faz devoção.
Celebramos agora 170 anos do alvorecer da Vila de Santo Inácio do Pinheiro e o bicentenário da fé que alicerçou o edifício desta memória. Uma memória que se ergue e ultrapassa a copa do babaçual, sob cuja sombra floresceu, há duzentos anos, o primeiro oratório. Uma devoção que acompanha o pinheirense na vida e na morte: do batismo à despedida, do altar ao Cemitério Santo Inácio. Mais que cemitério, é relicário de saudade, custodiando nossa história e transformando lembrança em alicerce afetivo e moral.
Como nos jardins de “Academus”, onde a sabedoria floresceu da quietude dos sepulcros, Pinheiro germina daquilo que recorda. Aqueles que grafaram a história com a própria vida permanecem raízes invisíveis, inumados no regaço deste torrão que o Rio Pericumã inunda, nutrindo a essência que faz florescer nossa identidade.
Sob o marco zero de nossa história, onde a antiga capela se alteia Catedral e monumento de fé, repousa a raiz da ancestralidade que nutre um destino em construção permanente. Cada pedra assentada, cada verbo pronunciado, cada gesto de resistência são testemunhos de uma gente que não apenas habita o tempo, mas o transfigura, porque a memória não é fóssil, mas chama viva que ilumina o presente, esse pedestal em que o futuro se escreve, no livro aberto da tradição, grafado por letras de vanguarda que refulgem em luminosidade.
Que tua história continue sendo escrita com fé que transcende, fé na vida, no bem, no justo e no verdadeiro, para que teu destino se faça luminoso e se renove na fraternidade de tua gente, como fogo grego nas águas do Pericumã. Ave Pinheiro.



