Debaixo do Angelinzeiro, quando o bem-te-vi cantou anunciando a última tarde de setembro, a APLAC silenciou sua lira e chorou. Não pela revolta diante da despedida inevitável, de quem perde a graça, mas num pranto manso: oração liquefeita em lágrimas discretas, algumas até invisíveis. Lágrimas profundas e caudalosas como as águas do Pericumã, em sereno e silencioso transbordar de saudade, seguindo o curso que deságua no insondável. Nossa Graça dizia adeus!

Das vocações da APLAC, duas se completam. A primeira é a luz, consagrada em seu lema: Acender-se e iluminar. A segunda, desde os seus primeiros passos, sempre cintilou em sua essência: a graça, essa vocação para ser graciosa. E a comprovação dessa verdade dispensa maiores lucubrações, pois se oferece à mais simples constatação: nas fileiras do sodalício estava Dona Graça.
Tínhamos nossa Graça: estrela a irradiar luminosidades, presença de espírito jovial e olhar sempre iluminado, cuja delicadeza transformava convivência em afeto e palavras em sementes de eternidade. Havia nela uma rara alquimia literária que convertia até o mais simples bilhete em pequena obra de arte, como se a caneta fosse um buril e as palavras, ao receberem a caligrafia de suas mãos, recebessem um sopro especial de graça e beleza, talhadas como finas filigranas da mais delicada ourivesaria.

Debaixo do Angelinzeiro, quando o bem-te-vi cantou anunciando a última tarde de setembro, a APLAC silenciou sua lira e chorou.
Graça! Palavra pequena na extensão das letras, mas imensa na vastidão dos significados. Nome que escrito se faz beleza, pronunciado ganha musicalidade e vivido converte-se em legado. Fez da palavra sua primavera e tem agora o céu por jardim. Porque em Dona Graça o nome confundiu-se com a própria pessoa, a sua graça permanece entre nós, florescendo na fé que cultivou, nos amigos que conquistou, nos sorrisos que distribuiu e nas páginas luminosas que deixou como herança para sua terra e para seu povo.
Por falar em permanência, na bandeira da APLAC, bem ao centro, floresce um lírio formado pelas letras gregas da palavra luz. Símbolo de pureza, renovação e permanência, ele traduz a própria essência da Academia. A flor despetalada pelo vento não morre nem deixa de existir. Exala perfume. Por isso, recusamo-nos a pensar que Dona Graça morreu.
Hoje, sua cadeira é ocupada por um vazio. Sua presença, porém, permanece, porque há pessoas que habitam os lugares apenas com o corpo, mas Dona Graça habitava-os com a alma. E almas luminosas não partem. Acendem-se no infinito, como estrelas, para continuar iluminando aqueles que permanecem na travessia.
Luminosidades — Dona Graça.


