Poeta: Alfaiate de Silêncios

Cinquenta primaveras, e também outonos, já se passaram desde que um punhado de sonhadores, abrigados na penumbra generosa da casa de Menotti Del Picchia, resolveu dar nome institucional a um desatino antigo: fundar o Movimento Poético Nacional. Não inventaram ali a poesia, porque ela habita o silêncio das coisas antes mesmo de o homem aprender a traçar letras no papel. O que fizeram foi apenas abrir a janela para que a brisa daquele 20 de outubro sacudisse a poeira dos dicionários e lembrasse ao mundo que a palavra tem pulso próprio.

Ser poeta não exige grau acadêmico ou cartilha, tampouco tem receita literária; pede apenas um punhado de espanto diante do óbvio, a escuta atenta do silêncio e a percepção dessa ausência de som camuflada no alarido, somadas à coragem de sujar as mãos na argila do cotidiano. É trançar, com a paciência da renda fina, a certeza de que a vida, com suas contradições e belezas, não cabe em fórmulas prontas; exige sempre o suor do instante, pois “o canto é maior que a razão”.

Ser poeta não exige grau acadêmico ou cartilha, tampouco tem receita literária; pede apenas um punhado de espanto diante do óbvio

Poético é mais que um adjetivo, e aqui vale lembrar que a Canção do Exílio de nosso poeta maior não tem adjetivos. Por isso, poético é a designação do exílio voluntário daquele que habita as realidades superiores, lá onde o sonho não cabe na gramática, mas que aduba no esterco do chão áspero da vida o que há de mais essencial. Algo que não é flor, mas fragrância que, entre a terra e as alturas, preenche o intangível com a leveza do invisível que se sente sem poder tocar.

Percorre-se, assim, a distância do exílio lancinante de Gonçalves Dias, que no desterro da pátria e na lucidez da morte soube transformar a saudade em canto perene, ao exílio solitário do voo condoreiro de Castro Alves, que recusa a rasteira mediocridade dos dias consumidos no sofrer da escravidão, mas que, ao fim do trajeto, precisa pousar na pedra bruta da existência para defender, no solo ressequido de desesperança, a própria liberdade que experimenta no voo.

Afinal, a literatura feita de verdade nunca se contentou com o conforto das nuvens, mas sempre “voa e canta enquanto resistirem as asas”, seguindo a lição alada do Voo de Menotti Del Picchia. Celebrar meio século desse movimento poético é ver na poesia uma travessia exigente e luminosa; e, ao olhar para trás e encarar cada tempestade, cada renascimento e cada cicatriz do caminho, compreender de vez a lição do poeta: tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Mas o verso é apenas o rastro visível desse ofício que não precisa de letras, tampouco de palavras para acontecer, porque não se confina ao papel impresso. O poeta, alfaiate de silêncios, só precisa desatar o nó do tempo, alinhavar o invisível e revestir a nudez e a miséria do mundo com o tecido invisível do espanto ou do encanto, esse princípio secreto e levedante que altera por dentro a substância dos dias. E assim, no arremate dos dias, terá a poesia na alquimia do gesto mais singelo, como a infusão de afetos presente em um chá, ou no mais audaz e complexo feito, como fazer um avião de puro e pesado ferro decolar ou os antônimos se abraçarem.

A poesia é a inteligência da alma e a emoção do intelecto. É a veste tecida no silêncio que nos protege da frieza do mundo, nos ensina a amar e nos dá o peso exato e a leveza necessária para vencer a gravidade da existência e voar.

Vivam os poetas!

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