Na manhã de 31 de julho, Pinheiro acordou em festa. Santo Inácio saiu à rua, capa preta ao vento, flores amarelas no andor, foguetes abrindo o céu em clarões breves. Mas havia um silêncio que não se explicava. Não era o silêncio da fé, mas o da ausência. Faltava a Graça.
Não a graça invisível que sustenta procissões, mas a Graça Leite mulher, figura discreta e constante, que se tornara parte da própria arquitetura da devoção, ao fundo da catedral, com seu terço na mão, em jejum rigoroso, sempre com muita alegria e vigor, sem deixar transparecer o menor sinal de abatimento. O máximo que se permitia era beber um pouco de água de coco depois do meio-dia, por conta do calor. Sua oração era muralha invisível, sua presença, coluna de sustentação.
Mas chega o fim do dia, os últimos raios do sol vão se apagando e o santo sai na porta da catedral sem barrete, como quem apressadamente procura alguém. Talvez fosse busca verdadeira, talvez fosse apenas o olhar dos fiéis que lhe emprestava essa pressa. Percorreu a praça, sondou janelas, espiou bancos da igreja. Nada. Nem Dulce, que sempre lhe dava o braço, como amparo daquela Graça, estava ali. A ausência não era apenas de uma pessoa, mas de um gesto, de uma fidelidade que se repetia como encontro marcado e sacramentado pela fé. E nesse vazio, o silêncio parecia falar mais alto do que o dobrar festivo dos sinos.
A procissão seguia com passo firme, mas diferente, como se carregasse um peso que não vinha só do andor. Era o peso da falta, que se sente sem se ver. O suor dos fiéis misturava-se ao cheiro das flores, enquanto o Santo estremecia a cada solavanco de sua gente, que tropeça nos buracos do asfalto, à semelhança do caminhar espiritual. E nesse cenário o vento, esse mesmo que galopa do mar ao palmeiral, veio afagar a capa preta do santo de Loyola e segredar ao cortejo: Graça está em São Luís, orante, rezando no silêncio de sua casa, preces que viajam pelo vento até Pinheiro.
No posto de Graça ninguém ficou, nem ficará. Porque certas presenças não se repetem: são como o som dos sinos, como o perfume das flores, como a fé que se encarna.
No posto de Graça ninguém ficou, nem ficará. Porque certas presenças não se repetem: são como o som dos sinos, como o perfume das flores, como a fé que se encarna. E naquele dia, o gesto que sempre voltava não voltou. Foi nesse não-acontecer que a devoção se mostrou maior: a ausência tornou-se sinal, e aquela Graça, que parecia faltar, estava inteira no vento silencioso, feito de oração e fôlego breve, de cada prece e de cada suspiro seu que, pela fé, rompeu distâncias para afagar a capa preta do Santo, que de Graça entende.

