Será que o Brasil se tornou um império porque Dom João VI, ao aportar nestas terras em 1808, trazia uma coroa sobre a cabeça? O certo é que, após empreender fuga dos exércitos de Napoleão, trouxe na bagagem a Biblioteca Real: um rico acervo de livros; embrião da intelectualidade da nova Corte, que sediaria o Império Lusitano.
Anos mais tarde, selada a Independência em 1822, Dom Pedro I compreendeu que o Império Brasileiro, para ser soberano exigia, antes de tudo, mentes formadas nas luzes do Direito e das letras e, em 11 de agosto de 1827, instituiu os primeiros cursos jurídicos do Brasil. Daí nasceu uma tríade que se perpetua até hoje: o Dia do Advogado, em reverência à profissão que sustenta a justiça; o Dia do Estudante, em homenagem à juventude que se lança às letras e ao saber; e o pitoresco Dia do Pindura, tradição que celebra, com irreverência, a coragem de ser estudante. Essa efeméride é a consagração de que o Brasil se ergueu sobre os pilares da educação e do Direito. Ser estudante é, por si só, um ato de cidadania.
A história da cultura e do conhecimento, no entanto, é feita de correntes cujos elos se espalham pelo tempo e pelo território. No Maranhão, essa vocação encontrou guarida na insigne linhagem dos Perdigão. Domingos Feliciano Marques Perdigão, o pai, fundou o Colégio Nossa Senhora dos Remédios em São Luís e fez da educação sua bandeira. Seu filho, Domingos Thomaz Vellez Perdigão, levou o saber às margens do Pericumã, fixando-se na Fazenda Santana, em Pinheiro, onde contraiu núpcias com Maria Rita de Castro Perdigão. E foi ali, em 1º de novembro de 1872, que nasceu Domingos de Castro Perdigão, o neto, destinado a perpetuar o legado dos Perdigão com voos altos, por meio das letras.
Homem de visão altiva, Domingos de Castro ajudou a erguer, em 1918, a Faculdade de Direito do Maranhão, e em 1924 fundou a Biblioteca Popular de Pinheiro
Homem de visão altiva, Domingos de Castro ajudou a erguer, em 1918, a Faculdade de Direito do Maranhão, e em 1924 fundou a Biblioteca Popular de Pinheiro, consumida pelas chamas da revolução de 1930. Mas a História não se rendeu às cinzas. A atual Biblioteca Municipal Elisabetho Carvalho, abrigada no prédio da Usina de Ideias, ergue-se como uma fênix, emprestando suas asas para perpetuar o voo alçado pelo nosso Perdigão pinheirense.
O gérmen plantado com a Biblioteca Popular de Pinheiro não pode fenecer; precisa florescer intelectualidade nos verdes campos do Pericumã e isto impele a defesa, com entusiasmo e firmeza, da utilização do quintal da nossa Usina de Ideias para ali edificar uma estrutura moderna para ampliar a Biblioteca Elisabetho Carvalho.
Sabemos que a Defensoria Pública — instituição essencial à cidadania — também busca o seu espaço definitivo. Sendo o município já generoso doador de amplo terreno para construir o novo Fórum, é perfeitamente natural e funcional que o Município promova a instalação da Defensoria nas adjacências do novo complexo judiciário, facilitando o acesso da população à justiça. Não se trata de oposição, mas da justa proporção dos sonhos: é impossível falar em estudante e em Perdigão sem aspirar a uma biblioteca moderna e ampla, lado a lado com a nossa Academia, honrando a máxima histórica de que, antes do Direito, chegam as letras.
Cada livro aberto uma asa, e cada página lida, um voo. Ampliar esta que é a única Biblioteca Municipal é garantir aos estudantes de hoje asas de Perdigão
Quem dera aos estudantes de Pinheiro, ao cruzarem as portas da Biblioteca Elisabetho Carvalho, a iluminação da chama cultural acesa pela linhagem dos Perdigão neste torrão: cada livro aberto uma asa, e cada página lida, um voo. Ampliar esta que é a única Biblioteca Municipal é garantir aos estudantes de hoje asas de Perdigão, transformando aquele quintal em um verdadeiro ninho de intelectualidade, de onde todos saiam, altivos, no voo do Perdigão — e que o poder público, enfim, desperte para dar guarida a esse canto.

