Sim, de muito longe mesmo. Deixaram o seu país arrasado pela guerra, seus familiares e amigos. Um compromisso de grande significação se lhes impunha o sacrifício. Era preciso dar prosseguimento à evangelização dos povos do noroeste maranhense.
Na companhia do Monsenhor Afonso Maria Ungarelli, nomeado por Pio XII, em 01 de junho de 1940, administrador apostólico da recém-criada Prelazia, chegaram a Pinheiro os missionários da Congregação do Sagrado Coração de Jesus: padres Fernando Meloselli, Augusto Mozzetti, Cornélio Dan, Fiorino Fiorini, Pedro Paulo Sambalino, Hamleto de Angelis, Humberto Giungarelli e frei José Preziosa.
Naquela tarde de 14 de agosto de 1946, Pinheiro fervilhava. Foguetes pipocavam desde cedo, na praça da Matriz, sob o comando do Sr. Severino Silva, o artesão de fogos de artifícios da cidade. Bitola com a sua inseparável buzina anunciava aos quatro cantos o desembarque dos padres italianos para as 18 horas, no porto da Faveira.
O povo chegava em massa para a recepção. Cantos e orações se sucediam à medida que a hora chegava. Dona Inêz permitiu que eu fosse à festa, mas juntamente com Vivina e Camélia pois só tinha 6 anos.
Para frustração geral a canoa que os deveria trazer não chegou. O desembarque somente ocorreu, na madrugada daquela quinta-feira, dia 15 de agosto de 1946.
No domingo, dia 18 de agosto, fui à missa com a minha irmã Moema e dona Inêz.
– Mamãe, esses padres são diferentes da gente. Eles falam tão esquisito!
– Não é, meu filho. Eles são estrangeiros. Falam italiano.
– Por que?
– Porque são da Itália. Fica muito longe daqui.
– Por que?
– Porque sim. Tu perguntas demais. Vai brincar.
Alguns dias se passaram. Certa manhã, tia Celsa levou lá em casa o novo vigário, padre Fernando Meloselli. Com toda expansividade típica do italiano, o padre se dirigiu à minha mãe:
– “Buon giorno”, dona Inêz. Que belo “bambino!”.
Não gostei do “belo”. Achei que era gozação. Afinal, comprido e magricelo, eu estava longe dos padrões de beleza da época. E muito menos do tal “bambino”. Só pode ser um apelido que o padre está colocando em mim, pensei. Como se já não bastasse o “pisca moderno” da molecada daqui, mais um era demais. Felizmente a turma não tomou conhecimento.
A tranqüila vida da cidade prosseguia. Algo, no entanto, havia mudado. A chegada dos padres despertou muita esperança, criou expectativas.
É claro que houve choques culturais. A retirada das imagens de santos do altar mor da Igreja Matriz, a substituição de São Benedito pelo Santíssimo Sacramento, na procissão de 25 de dezembro, foram alguns motivos que começaram a minar a relação dos paroquianos com o seu novo vigário. E, assim, de pequenos em pequenos incidentes, chegou-se ao ápice de uma relação de conflitos que marcou a comunidade, na década de cinqüenta. Em terreno propício, a chegada do militar e espírita Olí de Castro e a conseqüente instalação de um templo da Igreja Católica Brasileira do bispo de Maura alteraram bastante a estabilidade no dia a dia da cidade e mesmo do município tanto sob o ponto de vista religioso, quanto político e familiar.
Mas se avaliarmos, hoje, os grandes benefícios trazidos pela Prelazia e pelos padres missionários ao nosso município, verificaremos que tudo foi apenas uma questão de ajustamento, nas novas relações sociais que se estabeleciam.
Monsenhor Ungarelli com a sua visão lúcida e intuitiva alimentava, de há muito, a necessidade de formar um clero nativo que desse prosseguimento às obras da Prelazia. E, assim, em 1947, fundou o Seminário São José. O grupo inicial de seminaristas era pequeno, mas o suficiente para a arrancada. Ali estavam Geraldo Silva, que foi pároco de Pinheiro, Antônio Carlos Ribeiro e Tomaz Beckman, ambos também sacerdotes, José Ribamar Lima, Antenor Corrêa, José Humberto Martins, Reginaldo Brito, Antônio Marques, Sinval Soares, José Maria Costa, José Alfredo Durans e Haroldo Pimenta que não chegaram a ser ordenados.
Outros vieram. Alguns problemas, porém, levaram D. Afonso a encerrar as atividades do Seminário pouco tempo depois sem, contudo, deixar de colher bons frutos representados pelos padres que ali iniciaram seus estudos, como ainda, pelos pinheirenses que naquela casa começaram a sua formação de cidadãos.
D. Afonso que pelo meritório trabalho até então desenvolvido recebera da Igreja o báculo e a mitra, em 1948, não esmoreceu. Partiu para outros empreendimentos. Em 1950, fundou a Escola Paroquial Nossa Senhora do Sagrado Coração e, em 1953, após grande luta, instalou o Ginásio Pinheirense depois Colégio Pinheirense que tem registrado, o merecido reconhecimento pelo exitoso trabalho que vem desenvolvendo, na formação da juventude pinheirense. Por esta causa muitos trabalharam e continuam trabalhando. Outros missionários que depois vieram, as irmãs Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração, os pinheirenses que aqui se ordenaram, os professores e professoras cuja abnegação somada à figura do sempre dedicado Frei José foram os instrumentos que tornaram realidade o sonho de D. Afonso.
Pinheiro avançou muito. Nestes 80 anos após a chegada desses missionários para instalação da Prelazia, o desenvolvimento sociopolítico-cultural e o progresso que este município tem experimentado são reflexos da luta e da tenacidade do seu povo que tem contado sempre com a colaboração de muitos que aqui chegaram e, de modo especial, desses homens que vieram de longe.

