Carnaval de Pinheiro

Em Pinheiro, o carnaval nasceu tímido, fechado entre paredes de clubes que dividiam a alegria conforme a classe econômica e, infelizmente, também pela cor da pele. O esplendor habitava os salões do Casino Pinheirense. Era uma festa privada, marcada por fronteiras sociais que refletiam as desigualdades de seu tempo.

Mas a alegria, como rio em cheia, não se contém em margens estreitas. Transbordou, ganhou as ruas, tomou praças e avenidas, e se reinventou nas passarelas das escolas de samba. Hoje, essas escolas vivem apenas na lembrança dos antigos carnavais, mas deixaram marcas profundas na memória coletiva, como o samba que ecoa até hoje na voz de Doegnes: “Vou descer o rio eu vou pescar, no verão ele é campo, no inverno vira mar.” Era poesia cantada, patrimônio da folia pinheirense.

“Vou descer o rio eu vou pescar, no verão ele é campo, no inverno vira mar.” Era poesia cantada, patrimônio da folia pinheirense.

O grande Rei Momo foi “Fula”, irreverente e festivo, coroado pela alegria popular. Depois veio Raimundo Viegas, o “Viegão”, que reinava absoluto na Quarta-feira de Cinzas, transformando despedida em celebração, tristeza em riso, espalhando cinzas com muita maisena, cachaça e irreverência. E na voz de Doegnes, o carnaval encontrou sua marca registrada, memória afetiva de toda uma cidade.

Mas o carnaval de Pinheiro também se fez nos blocos populares, que eram pura invenção e sátira. No “Pinicão”, o utensílio se enchia de cerveja e transbordava de alegria, enquanto até a “Traíra de Óculos” enxergava festa por toda parte, arrancando gargalhadas e mostrando que a folia não tinha limites para a criatividade. E se alguém pegasse os óculos da traíra, logo enxergava chegando as “Patifas”, homens vestidos de mulher que saíam às ruas em uma patifaria só, dando ao carnaval o sabor da irreverência e da picardia que só existe às margens do Pericumã, onde a jocosidade é um retrato da alma pinheirense: profundamente alegre.

O carnaval de Pinheiro é feito de histórias, de personagens e de símbolos que ultrapassam o tempo. É resistência, é invenção, é poesia. E para encerrar, nada melhor que a sabedoria e a irreverência do pinheirense Jurandy Leite — grande intelectual, grande na espiritualidade e grande na folia — que nos brinda com samba e filosofia.

Se os óculos da traíra faziam enxergar a festa em toda parte, Jurandy, com suas camisas estampadas e sua verve inconfundível, nos ensina que a verdadeira visão nasce da alegria: ele transforma essa lente popular em lentes de contato da alma, cantando em marcha a certeza de que a beleza é escolha de quem lustra o próprio olhar:

“A beleza está nos olhos de quem vê,
Eu não sou trouxa de me olhar de outro jeito,
E é por isso que eu repito,
Eu sou bonito, eu sou bonito.”

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